segunda-feira, novembro 21, 2016


Aqueduto das Águas Livres - Vale de Alcântara - Lisboa -  Gravura do Século XIX

É só para recordar a visita de 16 de Novembro de 2016 



Visita ao Aqueduto - Retrato de Família



Nas já habituais Visitas de Estudo, a ASAP foi mais uma vez até Lisboa para visitar:
  —  Aqueduto das Águas Livres
    Museu da Água
  —  Museu do Dinheiro

Numeroso grupo de alunos, mais de sessenta, foram até à capital, para uma visita  pormenorizada ao Aquedutos da Águas Livres, fantástico monumento mandado construir por D. João V e cujo objectivo foi  o  abastecimento de  água à cidade de Lisboa.


Abastecimento esse que ocorreu  entre 1748 e 1960. 
Nesta data -1960- deixaram de se aproveitar as águas para consumo humano.
Foi o aqueduto construído entre 1731 e 1799,  obra do genial engenheiro militar Manuel da Maia e cujo trajecto em muito coincidia com alguns troços do antigo aqueduto romano do séc II
A sua construção só foi possível graças a um imposto denominado Real de Água, lançado sobre bens essenciais como o azeite, o vinho e a carne.
Esta notável obra hidráulica muito deve ao povo que com os seus impostos  contribuiu  para a  construção. 


Pelo facto da construção do Aqueduto das Águas Livres ter sido paga com o dinheiro do povo, D. João V mandou colocar no Arco da Rua das Amoreiras uma placa com os seguintes dizeres em Latim:

No ano de 1748, reinando o piedoso, feliz e magnânimo Rei João V, o Senado e povo de Lisboa, à custa do mesmo povo e com grande satisfação dele, introduziu na cidade as Águas Livres desejadas por espaço de dois séculos, e isto por meio de aturado trabalho de vinte anos a arrasar e perfurar outeiros na extensão de nove mil passos.


Anos mais tarde, o Marquês de Pombal, substituiu aquela placa  por outra.

A inscrição que se lê agora no Arco da Rua das Amoreiras diz:

Regulando D. João V, o melhor dos reis, o bem público de Portugal, foram introduzidas na cidade, por aquedutos solidíssimos que hão-de durar eternamente, e que formam um giro de nove mil passos, águas salubérrimas, fazendo-se esta obra com tolerável despesa pública e sincero aplauso de todos. 


Ouvindo o Guia


O Aqueduto das Águas Livres é a maior ponte de pedra do mundo, ostenta o maior arco em ogiva do planeta e constitui um sistema de distribuição de água com 58 km de comprimento, que começa na Serra de Sintra com descida gravítica, em média 3 mm em cada metro, 
O complexo sistema de abastecimento à cidade com os seus inúmeros chafarizes  resistiu ao catastrófico terramoto de 1755 e foi a única grande obra que resistiu incólume ao trágico acidente natural.
O troço principal com cerca de 14 Km começa em Belas e  termina na Mãe de Água nas Amoreiras,
Só na  capital abastece 30 chafarizes.





Chafariz do Rato


 - Vista actual do Aqueduto - Séc. XXI -  Vale de Alcântara -




Atentos às explicações e à História




MUSEU DA ÁGUA



A primeira tentativa para a construção de um Museu de Água remonta a 1919.
Em 1959 deu-se continuação à intenção na sequência da demolição das caldeiras da antiga Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos .
Em 1987 foi finalmente instalada uma exposição permanente onde se destacava a história da evolução do abastecimento de água à cidade de Lisboa, desde a presença romana até aos dias de hoje
A primeira exposição permanente manteve-se até Dezembro de 2013, altura em que se iniciaram novas obras de requalificação do edifício da estação elevatória a vapor dos Barbadinhos, com enfoque para as acessibilidades, modernização e actualização do espaço expositivo e adequada musealização do património industrial ali patente.



A caminho de um dos reservatórios


Museu da Água - Aspecto do interior

 Agradecimento ao Museu

O coral da ASAP  num breve improviso de agradecimento pelas gentilezas recebidas na visita retribui com um cantar alentejano.
Para ouvir calcar na foto



MUSEU DO DINHEIRO
BANCO DE PORTUGAL




Igreja de São Julião Século XVII  - sede do Museu desde Novembro de 2016


Museu do Dinheiro - aspecto actual do interior - Igreja de São Julião após a adaptação 

Perfeitamente enquadrada na malha urbana da baixa lisboeta, pela pureza das suas linhas arquitetónicas e traça marcadamente pombalina, a antiga Igreja de S. Julião constitui um bom exemplo dos templos reconstruídos  em finais do século XVIII depois do Terramoto

A igreja, originalmente do século XVII, mas reconstruída depois do terramoto, está integrada num quarteirão que pertence, todo ele, ao Banco de Portugal - foi, aliás, o último dos nove edifícios que o banco foi adquirindo entre 1868 e 1933, "fechando" assim o quarteirão

Este espaço, igreja desde o século XVII  até 1933,  constituiu um conjunto de Cofres Fortes do Banco de Portugal
Já foi o maior centro de distribuição de numerário do país, até 1996. 
Depois foi armazém e garagem, até 2006. 
Mas agora é um museu, o mais novo em Lisboa. 


Cofre forte





Vídeo da Visita: Agradecimento e Despedida

Disponível até 19/12/2016

Calcando no link acima é possível transferir e depois visualizar  o video, enviado por gentileza pelo Museu do Dinheiro.
Demora cerca de 1 minuto a carregar.
Segundo o Museu do Dinheiro ele só está disponível até ao dia 19 de Dezembro de 16,
Se transferido ficará guardado no computador
O tema do vídeo é o mesmo que o apresentado em cima, só que com mais qualidade.



Interessante visita ao  Museu do Dinheiro desde o  aparecimento das primeira moedas até aos nossos dias,



- Morabitino de D. Sancho II - 
Réplica da moeda cunhada, ou em Braga ou em Lisboa,  no reinado de D. Sancho II 


Casa da Moeda - 1881 - Revista Ocidente




Visita ao Aqueduto e Museu do Dinheiro - Retrato para a História


Para ambos os Museus deixamos uma palavra de agradecimento pelas gentilezas recebidas e pelo excelente acompanhamento dos Guias.
BEM-HAJA


Pedra sobre pedra até à divina geometria
por Margarida Ruas
Publicada no Diário de Notícias, em 09 de Agosto de 2015

Geometria Divina, símbolos misteriosos, lendas, homicídios em série. Obras de engenharia notáveis e conflitos memoráveis entre os maiores arquitectos do século XVIII. O Aqueduto das Águas Livres - em todos os seus 58 quilómetros de troços, de Belas às Amoreiras - é um monumento "ao melhor e ao pior" dos homens.

Caminhamos sobre o vale de Alcântara, num dia de calor tórrido, mas a sombra do gigante de pedra protege-nos. A marcha é lenta porque, a cada passo, a nossa "guia" tem uma história para contar. O Bairro da Serafina homenageia "uma estalajadeira, com talento para a cozinha", que alimentou sucessivas gerações de mestres e operários da obra do aqueduto. A ogiva central "é a maior do mundo - estamos no Guiness Book por causa disso - mas conta a lenda que é fechada unicamente por três pedras, que só um som pode apartar".

Margarida Ruas não sabe que som é esse. Provavelmente será das poucas questões sobre o Aqueduto das Águas Livres para as quais não tem resposta. E se a tivesse guardaria o segredo até ao fim dos seus dias. Especialista em comunicação política, criadora do extinto Contra Informação, da RTP, foi durante muitos anos diretora do Museu da Água, da EPAL. E deve-se a ela o facto de os lisboetas poderem voltar a percorrer aquele caminho público, outrora maldito, devido à memória de um assassino cruel (ver texto ao lado).

Em 1996, quando a empresa a nomeou diretora de comunicação, com o pelouro do museu, o único espaço visitável em todo o complexo das Águas Livres era a Estação Elevatória dos Barbadinhos. Numa semana, abriu ao público um novo museu polinuclear, integrando a passagem de Alcântara, a Mãe de Água das Amoreiras e o Reservatório da Patriarcal, no Príncipe Real.

Já não tem responsabilidades diretas no museu. Mas continua a defender o monumento pelo qual um dia se apaixonou "perdidamente". Em 2004, os Guardiães do Aqueduto, um grupo que lidera, conseguiram travar um projeto que previa a demolição de um troço de dois quilómetros, perto de Belas, para dar lugar a um acesso à CRIL e a um shopping. Hoje, é a porta-voz de um movimento internacional que quer fazer daquele monumento - em todos os seus 58 quilómetros de canais - Património da Humanidade reconhecido pela UNESCO. "É obrigação nossa, dos portugueses, deixá-lo para a humanidade, tal como foi deixado por todos aqueles fantásticos mestres e pedreiros, e por todas as vidas que se perderam na construção."

Erros humanos até à perfeição

A nascente de Belas, onde tem início o percurso de 58 km de canais do aqueduto, numa imagem do arquiteto e músico Emanuel Pimenta.
O sonho de fazer chegar as "águas livres"a Lisboa - cidade banhada por um rio cuja água é salobra desde Santarém - começou no último quarto do século XVII, ditando a criação do real da água - uma espécie de imposto sobre o valor acrescentado aplicado a produtos como o vinho, a carne e o azeite - para financiar o projeto. Mas só em 1731, com o alvará régio de D. João V, foram criadas as condições.

O projeto foi entregue a um trio de notáveis: o italiano Antonio Canevari que, por essa altura, concluia a construção da Torre da Universidade de Coimbra; o coronel Manuel da Maia que, anos mais tarde, seria decisivo na reconstrução da Baixa lisboeta após o terramoto de 1755; e o alemão Johann Friedrich Ludwig, ligado a obras como o Convento de Mafra.

Canevari era o mestre entre os mestres. Mas perdeu o estatuto ao fim de um ano. A sua conceção de uma estrutura hidráulica acionada por sifões para bombear a água até Lisboa era demasiado mundana para as aspirações do rei, que governou num dos períodos mais ricos da História de Portugal, graças ao ouro do Brasil. D. João V queria uma obra que perdurasse. E em retrospetiva tinha razão porque, do muito que mandou construir, o aqueduto foi das poucas edificações a escapar ao sismo de 1755.

O mestre português convenceu o rei com o mais monumental sistema de desnível, que viria a vingar, mas revelou-se ineficaz na execução: "Manuel da Maia tinha o problema de querer abrir demasiadas frentes de obra ao mesmo tempo, não conseguindo dar andamento a nenhuma."

Obra foi pensada para fazer refletir o mundo exterior na água, através de janelas.
Em 1736 avançou o engenheiro militar Custódio Vieira: "Era uma figura notável e um dos nomes mais importantes da história do aqueduto. Inventou uma estrutura para conseguir transportar os carrilhões [sinos do Convento] de Mafra. E foi graças a essa estrutura que se conseguiram erguer também estas colunas". Como o fez, não se sabe ao certo, porque os planos da maravilha da engenharia viriam a desaparecer, em 1755, entre os escombros do Paço da Ribeira, onde se guardava boa parte dos documentos mais importantes da capital.

Custódio Vieira ainda concluiu o Arco Grande, em 1744, mas morreu nesse mesmo ano, já não assistindo à inauguração do Aqueduto, em 1748. Seriam necessárias várias décadas ainda, até que, às portas do XIX, a obra cumprisse em pleno a missão de abastecer Lisboa, que depois manteve até ao fim da sua "vida funcional", em 1964.

"A história do aqueduto consubstancia o melhor e o pior de nós portugueses", diz Margarida Ruas. "O melhor porque é uma obra notável, feita -tal como afirmavam-, dando o melhor de nós para chegar a Deus, para construir a beleza máxima e a pureza máxima. O pior porque, na realidade, as lutas internas foram tão grandes, entre os mestres, entre os donos da obra, que acabou por ser solucionada passados quase cem anos com a intervenção do patriarcado."

Faz sentido que, a determinada altura, "um padre tenha também sido o coordenador da obra". É que, explica, o aqueduto está entre alguns monumentos do mundo, "tal como as pirâmides de Gizé, no Egito, tal como Notre Dame, em Paris", construídos de acordo com a geometria sagrada: a crença de que a geometria e a matemática estão intimamente ligadas a toda a realidade que nos rodeia. "Na geometria sagrada partimos do caos para a ordem. E para isso foi preciso dividir por números, os chamados números-ideia". O homem é "o agente integrador". E no caso do aqueduto, "único no mundo", essa integração "dá-se através de uma dimensão imaterial. Quando passeamos nas nascentes, com a água de um lado e do outro, as janelas refletem todo o mundo exterior".

Margarida Ruas reabriu o Aqueduto aos lisboetas e é uma das suas “guardiãs”
A dimensão mística desta obra de homens imperfeitos não deixa ninguém indiferente. O luso-brasileiro Emanuel Dimas Pimenta, especialista em arquitetura espacial e membro do comité técnico desta área no Comité Norte-Americano de Astronáutica e Aeronáutica, não se considera "nada esotérico". Mas recentemente publicou o ensaio: O Mistério das Águas Livres - O mágico aqueduto de Lisboa. "O aqueduto foi construído num período em que estavam em voga os universos esotéricos, como o universo Rosacruz. E historicamente ilustra um período do pensamento europeu de que poucas pessoas se dão conta", explica ao DN.
As próprias pedras do monumento remetem-nos para um universo misterioso. Várias têm símbolos que facilmente associamos à maçonaria, a ordem dos pedreiros livres. José Medeiros, historiador e presidente da Academia dos Saberes, esclarece que a maioria deles não eram mais do que "marcas de obra deixadas aos pedreiros pelos canteiros, que trabalhavam a pedra, algumas das quais acabaram por ser incorporadas pela maçonaria especulativa, ganhando significados completamente diferentes". Mas há também "símbolos especiais, de consagração, como o círculo com a cruz no meio e os três planos com a cruz em cima".

"O pancadas", o sociopata que matou dezenas por uma moeda

Diogo Alves, mais conhecido pela alcunha de "O Pancadas", ficou para a história como um dos piores sociopatas portugueses. Roubava mulheres no passeio público do Aqueduto, em Alcântara e, "por uma moeda", lançava dezenas de vítimas para a morte.
O processo de Diogo Alves está em exposição na Torre do Tombo
"Era um assassino em série. Era um homem de dupla personalidade. Durante o dia era boieiro e, ao que parece, de um profissionalismo extremo, e à noite transformava-se no pior dos assassinos", conta Margarida Ruas.
O modus operandi do homicida era sempre o mesmo: esperava pela passagem das lavadeiras de Caneças, "que vinham ou buscar ou entregar as roupas aos aristocratas em Lisboa", roubava-as e lançava-as do viaduto abaixo.
Inicialmente, as mortes chegaram a ser atribuídas a uma estranha vaga de suicídios. Mas quando as vítimas começaram a totalizar várias dezenas as autori- dades perceberam que estavam a lidar com um homicida em série e o caminho público sobre o aqueduto foi interdito.
Diogo Alves nunca chegou a ser apanhado por estes crimes. Viria a ser detido, sim, pela morte da família de um médico, na Rua das Flores, durante um assalto conduzido por ele e por vários membros do seu gangue. Foi por este último crime que acabou por ser condenado e executado, em 1841. O processo que conduziu à sua condenação está atualmente em exposição na Torre do Tombo, em Lisboa.
Há uma lenda urbana que o identifica como o último condenado à morte em Portugal. Na realidade, esta pena foi abolida mais de uma década depois, em 1852, por D. Maria - mas apenas para crimes políticos - só sendo abolida para crimes civis em 1867, já no reinado de D. Luís. Vários homens foram ainda condenados e executados depois do "Pancadas". Mas o seu lugar na história ficou ainda assim assegurado, pelos piores motivos.
Aliás, por ironiado destino, entre centenas de figuras históricas ligadas ao aqueduto, Diogo Alves é mesmo a única cujo rosto podemos ainda contemplar. A sua cabeça foi decepada após a execução, a fim de ser estudada pela comunidade científica, e continua ainda conservada em formol no teatro Anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Galego de nascença, "O Pancadas" - pela gravidade dos seus crimes - acabaria por contribuir para uma animosidade, que durou décadas, contra os imigrantes da galiza, que não só eram os aguadeiros de Lisboa - antes do aqueduto - como foram os primeiros bombeiros da cidade.


Almoço de Natal 2009